Só falta você!

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Apologia ao povo


Todos que me conhecem, sabem que detenho um sentimento especial para com o povo. É uma coisa muito superior a simples empatia, de modo que isso me incute, anseia-me a desenvolver o texto que se segue. 

Que tal começarmos pelo próprio termo? Ora, a palavra "povo" não seria promíscua demais? Com efeito, é uma forma não só muito consuetudinária como também abrangente de se referir às pessoas. No entanto, para bem definir a direção de minha homenagem, é necessário chegar antes a uma descrição do que vem a ser esse tal "povo", para se explanar melhor o que é que eu estou amando.

Para mim, o povo não se resume a leviana concepção de conjunto de pessoas, sendo-me mais profundamente entendido como classe. Logo, significa que o meu amor é destinado a minha categoria, a minha gente, a minha identificação.

Seguindo adiante, eu faria uma analogia do povo como uma criança que mal-educada, torna-se a principal vítima de si mesma. Ou seja, pela razão de não ter acesso a uma instrução decente, a criança, ou o povo, não se desenvolve tanto quanto poderia. 

Todavia, onde é que eu me encaixo nessa história? Bem, independente deu fazer parte dele, eu ao mesmo tempo sou consciente da minha condição plebeia, isso me torna uma rara exceção. E como exceção, eu jamais busquei me afugentar, tampouco me senti inferior. Aliás, para mim é uma inestimável honra fazer parte dos indivíduos responsáveis por todas as construções que nos cercam, pelo plantio e colhimento dos alimentos que nos sustentam diariamente,  e também pela gente que nos faz rir com sua infinita criatividade, enfim, por todos esses que fazem a vida ser viável nos mais diversos sentidos.

Então, identifica-se como povo, todos aqueles que se submetem à ordens. Nós somos o povo, portanto, para amar o povo é preciso amar a si mesmo.

Atenção para as falsas declarações de amor destinadas ao povo. Para nota-las, basta reparar o teor e a forma a que se referem ao povo, para clarificar isso, é quando o demagogo menciona "povão", pois este termo é torpe, e denota implicitamente o nojo, o desprezo para com as pessoas que compõe o elemento povo.  

O amor pelo povo só se torna verdadeiro quando num sentindo mais amplo, ou seja, o afeto deve ultrapassar as divisas de seu estado, as fronteiras de seu país, a fim de chegar muito mais longe, ela deve alcançar a todos, isto é, a humanidade. Portanto, é possível dizer que quem desperta um sentimento de amor pelo povo, ama necessariamente e sobretudo a humanidade.

Ainda em analogia, o povo é digamos uma criança ingênua, que exatamente por ser tão inocente, não sabe que unido torna-se uma força insuperável, mal sabendo que somente a força divina é a única acima de si. 

O povo é tão puro que é incapaz de perceber que está inserido num sistema dominador, onde ele é quem exerce o papel de dominado. Por isso, inconscientemente ele se auto-flagela, ele  não entende a si mesmo, de modo que aponta contra o próprio peito dizendo que é um bandido e que merece apodrecer na cadeia. Isto é, ele não tem noção de onde se origina a culpa, ele não sabe que o que ele é ou o que ele poderá ser, está estrita e friamente calculado por quem o governa. Logo, seria cego e hipócrita dizer que o povo não é ignorante, pois o povo é tão mentalmente pobre que não sabe discernir o que é ruim ou bom para ele mesmo, logo os erros cometidos pelo povo, por mais bárbaros que sejam são completamente perdoáveis.

Obviamente que o povo é imperfeito, não obstante, sempre o será. Eu porém, aceito os seus acertos, bem como as suas falhas.

A razão pela qual torna o povo imensamente severo e intolerante consigo próprio, é a sua burrice que, por sua vez, é ocasionada pelos governantes que além de faltar com o auxílio, utilizam-se de meios a fim de impedir o acesso a cultura e consequentemente bloquear o crescimento intelectivo populacional.

Talvez, o principal motivo que faz fervilhar compaixão em meu âmago por este povo, é precisamente o seu excesso de credulidade. Meu Deus! Alguém deve se sensibilizar com a estupidez do populacho e a partir disso acudi-los!

Para fechar, digo que apesar deu amar a "criança-povo" com todas as minhas forças, eu não estou aqui para assumir-me como o pai dela, eu apenas me solidarizo com essa criança, aproximadamente como um irmão mais velho eu diria. Eu enxergo zelar por ela como minha missão vital. 

Por fim, eu só desejo ver essa criança emancipar-se, governando a si mesma, sendo capaz de guiar-se sozinha com as suas próprias pernas, pensar com a sua própria cabeça. Pois que vamos dar a essa criança o que ela tanto precisa! Pois que vamos dar o seu devido valor! Pois que vamos educa-la para finalmente se tornar adulta!

E finalmente, por essa série de razões que eu sou capaz de viver e morrer pelo meu povo. Eis aqui, a textualidade mais altamente engajada de minha vida toda. 

3 comentários:

  1. Fala Anselmo!

    Antes de mais nada, é oportuna a definição de "povo". É um termo tão complexo, que Newton Cruz, um dos generais mais severos da Ditadura, se disso "do povo também" quando questionado numa entrevista.

    Eu confesso que oscilo muito entre o sentimento de amor e pertencimento ao povo, com o sentimento de censura pelos atos e descompromissos desse mesmo povo. Mas geralmente, minha esperança de ver as pessoas pegarem seu destino pelas mãos, como tem acontecido em outros países, é maior do que tudo, e eu no fim das contas acredito nas pessoas desse país.

    Estou seguindo seu blog, a partir de agora creio que vou aparecer aqui com muita frequência.

    Grande abraço Anselmo!

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  2. Boa tarde, Anselmo.
    Toda vez que alguém me fala sobre o povo e como ele se comporta eu lembro do filme O Show de Truman, onde Jim Carey vivia em um reality show e não tinha a menor consciência disso.
    O grande problema do povo brasileiro é sem dúvida a ignorância da própria condição, que se alimenta da própria ignorância e se perpetua, através de mecanismos de controle das classes mais poderosas.
    E a única forma de se ver livre disso é através da educação, atualmente mais acessível do que em tempos atrás através de meios como a internet.
    Eu sempre me identifiquei com as pessoas mais humildes do povo e espero sentir-me assim por toda minha vida.
    Abraço.

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  3. OLá Anselmo boa tarde pra você, nesse início de Primavera!

    Confesso a você que ainda não havia lido nada semelhante a essa conceituação de Povo que você deu em sua esplêndida dissertação, que pensando bem, é mais que isso, é um belo ensaio literário. Você é muito bom nisso, menino. Te admiro muito.

    Enquanto lia o texto, em minha mente foi se formando uma uma imagem aproximada de Povo, e ela me revela a faixa etária que permeia a adolescência à juventude, ou seja, saiu da infância, simbolizada pela ignorância, imaturidade, que a coloca sob a dependência de algo, ou pessoas, consideradas mais preparadas...Já a adolescência é o período caracterizado pelo conflito, a descoberta do EU, e começa a descobrir que é alguém diferenciado dos demais com quem convive, que começa a estabelecer uma relação entre ele e o ambiente, e o outro, ou como diria Mendousse,uma "anarquia das tendências" .O Povo, está se descobrindo como força que detém um poder, e quer estruturar-se. Ainda pode ser manipulado, embora já reaja, porque ainda não possui um ideal a colimar...A sua maior pergunta íntima é : "qual o meu papel na sociedade, ou no mundo que eu vivo?" Então, eu leio em seu texto o brilhante trecho: "ver essa criança emancipar-se, governando a si mesma, sendo capaz de guiar-se sozinha com as suas próprias pernas, pensar com a sua própria cabeça.", eu concluo esse meu longo comentário, dizendo que talvez, quando o Povo, amadurecer na faixa etária da Juventude, que vem após a adolescência. Juventude que se carateriza por uma estrutura já definida, emancipada. E muito mais...

    Amo vir aqui filosofar, dissertar e raciocinar lendo seus textos tão instigantes , mas tão alimentador da minha fome de saber e de pensar.

    Teu nome de luz, também está lá no quadro de "Blogando entre Amigos", na blogagem coletiva em que estou participando, pelo dia do Blog , que foi ontem...

    Beijos da Lu...

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Não sou o "dono da verdade", portanto, estarei sempre disposto a ouvi-lo(a)...